Plano de Cuidados de Enfermagem para Pancreatite Aguda
Acute Pancreatitis

Plano de Cuidados de Enfermagem para Pancreatite Aguda

Plano de cuidados de enfermagem para pancreatite aguda: controle da dor, equilíbrio hídrico e PDF imprimível. Desenvolvido por enfermeiros para enfermeiros da unidade.

Plano de Cuidados de Enfermagem

Diagnóstico de Enfermagem 1: Dor Aguda

Dor Aguda relacionada à pancreatite aguda: critérios de Atlanta revisados. 2 de 3: dor abdominal característica, lipase > 3× o LSN, achados de imagem característicos, evidenciada por dor epigástrica intensa com irradiação para o dorso; dor avaliada > 7/10 em escala numérica de 0–10; fácies de dor, postura de defesa abdominal, posição fetal; taquicardia, hipertensão, diaforese (resposta autonômica); dor exacerbada pela alimentação; às vezes aliviada pela posição de inclinação anterior.

Intervenções

  • Avaliar a dor por meio de escala numérica de 0–10 em intervalos compatíveis com a gravidade clínica (comumente a cada 1–2 horas) e aproximadamente 30 minutos após cada intervenção, conforme protocolo institucional.
  • Caracterizar a dor: localização, irradiação para o dorso, qualidade, início, duração e fatores de piora ou alívio.
  • Monitorar sinais vitais (FC, PA, FR) e sinais autonômicos (diaforese, palidez) em intervalos compatíveis com a gravidade clínica.
  • Avaliar indicadores não verbais de dor (fácies de dor, defesa abdominal, agitação), especialmente quando o paciente estiver sedado ou incapaz de verbalizar.
  • Reavaliar a adequação do controle da dor a cada passagem de plantão e antes de atividades (mudança de decúbito, deambulação, respiração profunda).
  • Administrar analgesia opioide prescrita (comumente hidromorfona, PCA com fentanil ou morfina) conforme o esquema prescrito; titular dentro dos parâmetros estabelecidos pelo médico.
  • Configurar e orientar o paciente quanto ao uso da bomba de PCA quando prescrita; verificar o intervalo de bloqueio e a dose de ataque com um segundo enfermeiro conforme política institucional de medicamentos de alta vigilância.
  • Posicionar o paciente em semi-Fowler com os joelhos flexionados ou apoiar a inclinação anterior quando o paciente preferir.
  • Manter regime de jejum oral quando prescrito por vômitos ou íleo; coordenar a progressão para líquidos claros e dieta branda hipogordurosa conforme prescrição médica e protocolo institucional na PA leve.
  • Oferecer medidas não farmacológicas complementares: iluminação reduzida, ambiente tranquilo, imaginação guiada, apoio para reposicionamento.
  • Articular com a equipe médica o agendamento de antiemético (comumente ondansetrona) para prevenir vômitos e reduzir os picos de dor associados ao vômito.
  • Orientar o paciente a comunicar a dor precocemente (em torno de 3–4/10), sem aguardar que ela se torne intensa.
  • Orientar sobre segurança da PCA quando prescrita: somente o paciente pressiona o botão; nenhum familiar deve acionar o dispositivo.
  • Ensinar técnicas de respiração profunda e contenção abdominal para apoiar a higiene pulmonar durante a tosse e a deambulação.
  • Notificar o médico para dor não responsiva à PCA e aos recursos adjuvantes prescritos, mudança súbita no caráter da dor ou novos sinais de irritação peritoneal.
  • Articular interconsulta com equipe de manejo da dor ou cuidados paliativos conforme protocolo institucional para dor refratária.

Resultado esperado: O paciente relata dor dentro da meta de conforto-funcionalidade definida por ele (comumente ≤ 4/10) com a analgesia prescrita nas primeiras 24 horas; o paciente demonstra expressão facial e postura relaxadas quando o estado clínico permitir; os sinais vitais retornam em direção aos valores basais após a analgesia prescrita.

Diagnóstico de Enfermagem 2: Déficit de Volume de Fluidos

Déficit de Volume de Fluidos relacionado à pancreatite aguda: critérios de Atlanta revisados. 2 de 3: dor abdominal característica, lipase > 3× o LSN, achados de imagem característicos, evidenciado por vômitos persistentes e jejum oral; terceiro espaçamento para o retroperitônio por extravasamento capilar; taquicardia e hipotensão ortostática; mucosas ressecadas; redução do turgor cutâneo; diurese < 0,5 mL/kg/h.

Intervenções

  • Monitorar sinais vitais (FC, PA, incluindo medida ortostática quando viável) em intervalos compatíveis com a gravidade clínica nas primeiras 24 horas.
  • Manter controle rigoroso do balanço hídrico horário; notificar o médico para diurese < 0,5 mL/kg/h mantida por 2 horas consecutivas.
  • Acompanhar hematócrito, ureia, creatinina e lactato conforme prescrição médica durante a reanimação inicial.
  • Avaliar mucosas, turgor cutâneo, enchimento capilar e estado mental em intervalos compatíveis com a gravidade clínica.
  • Auscultar os pulmões em intervalos compatíveis com a gravidade clínica durante a reanimação.
  • Pesar o paciente diariamente na mesma balança e no mesmo horário quando o estado clínico permitir.
  • Administrar Ringer Lactato prescrito na velocidade determinada pelo médico, guiada por metas (comumente em torno de 1,5 mL/kg/h de manutenção na PA leve a moderada; velocidades mais elevadas, como até ~3 mL/kg/h ou bolus de 250–500 mL/h, reservadas para doença grave ou hipovolemia documentada conforme prescrição médica e protocolo institucional). Reavaliar a cada 4–6 h e titular conforme diurese, FC, PAM e tendências de hematócrito/ureia.
  • Reavaliar o estado volêmico a cada 4–6 h e coordenar a redução progressiva da velocidade de infusão com a equipe médica assim que a diurese ≥ 0,5 mL/kg/h, FC e PAM estiverem dentro dos parâmetros prescritos e hematócrito e ureia apresentarem tendência de normalização.
  • Ajustar a velocidade do fluido IV conforme prescrição médica com base na diurese, FC, PA e tendências de hematócrito/ureia; evitar manutenção em velocidade fixa sem reavaliação, conforme protocolo institucional.
  • Manter sonda vesical de demora conforme prescrição médica quando a mensuração horária da diurese for necessária na PA grave.
  • Administrar reposição eletrolítica prescrita (K+, Mg2+, Ca2+, PO43-) conforme protocolo institucional.
  • Manter dois acessos venosos periféricos calibrosos ou acesso venoso central na PA grave conforme prescrição médica e protocolo institucional.
  • Orientar o paciente e a família sobre o objetivo da terapia com fluidos IV e o protocolo de pesagem diária.
  • Educar sobre sinais de desidratação a serem comunicados após a alta hospitalar: tontura, boca seca, urina escura, fraqueza.
  • Reforçar a prescrição de jejum oral ou o plano de progressão dietética e o seu fundamento clínico.
  • Notificar o médico para diurese < 0,5 mL/kg/h por 2 horas consecutivas, PAM < 65 mmHg, FC > 120 bpm ou elevação progressiva do lactato.
  • Coordenar a transferência para a UTI conforme protocolo institucional em casos de falência orgânica persistente ou hipotensão refratária.

Resultado esperado: A diurese é monitorada e notificada dentro dos parâmetros prescritos (comumente ≥ 0,5 mL/kg/h) nas primeiras 12 horas; FC e PA são monitoradas e notificadas dentro dos parâmetros prescritos; a tendência de hematócrito e ureia é documentada e notificada em direção aos valores basais.

Diagnóstico de Enfermagem 3: Déficit Nutricional Corporal

Déficit Nutricional Corporal relacionado à pancreatite aguda: critérios de Atlanta revisados. 2 de 3: dor abdominal característica, lipase > 3× o LSN, achados de imagem característicos, evidenciado por jejum oral prolongado na PA moderadamente grave ou grave; dor associada à alimentação; aversão alimentar; náuseas e vômitos limitando a ingesta oral; estado hipermetabólico decorrente da inflamação sistêmica; aumento das necessidades proteico-calóricas durante a recuperação.

Intervenções

  • Avaliar o estado nutricional basal: peso, IMC, perda de peso recente, albumina, pré-albumina e história alimentar.
  • Avaliar a presença de náuseas, vômitos, distensão abdominal, ruídos hidroaéreos e eliminação de flatos ou fezes em cada plantão.
  • Reavaliar a resposta à dor frente à progressão da dieta a cada refeição na PA leve conforme protocolo institucional.
  • Monitorar síndrome de realimentação (K+, Mg2+, PO43- baixos) quando a nutrição for iniciada após jejum prolongado.
  • Avaliar síndrome de abstinência alcoólica por meio do instrumento CIWA-Ar conforme protocolo institucional em pacientes com PA de etiologia alcoólica.
  • Articular com a equipe médica e com a nutricionista a introdução precoce de nutrição enteral (comumente nas primeiras 24–72 horas) na PA moderadamente grave e grave, conforme prescrição médica e protocolo institucional.
  • Coordenar a dieta enteral por sonda nasoenteral pós-ligamento de Treitz em detrimento da nutrição parenteral total quando a ingesta oral não for tolerada, conforme prescrição médica.
  • Progredir a alimentação oral dos pacientes com PA leve (dieta branda hipogordurosa) nas primeiras 24–48 horas quando a dor melhorar e a equipe médica prescrever a progressão, mesmo sem resolução completa da dor, conforme protocolo institucional.
  • Administrar antieméticos e analgesia pré-refeição prescritos em pacientes com aversão alimentar, conforme protocolo institucional.
  • Administrar reposição eletrolítica prescrita (K+, Mg2+, PO43-) antes e durante a realimentação conforme protocolo institucional.
  • Articular com a nutricionista o estabelecimento de metas individualizadas de calorias e proteínas (comumente 25–35 kcal/kg/dia em pacientes críticos), conforme protocolo institucional.
  • Orientar o paciente sobre dieta hipogordurosa (comumente < 30% das calorias provenientes de gordura) durante a recuperação e seu fundamento clínico.
  • Reforçar a importância da abstinência total de álcool como medida fundamental para prevenir recidivas na PA de etiologia alcoólica.
  • Ensinar o cuidado com a sonda nasoenteral (irrigação, fixação, sinais de deslocamento) caso o paciente receba alta com nutrição enteral domiciliar.
  • Coordenar encaminhamento para acompanhamento ambulatorial com nutricionista e para serviço social ou serviço de dependência química em casos de transtorno por uso de álcool, quando aplicável, conforme protocolo institucional.
  • Notificar o médico para intolerância à progressão dietética, vômitos recorrentes ou sinais de síndrome de realimentação.
  • Coordenar colecistectomia na mesma internação para PA biliar leve conforme prescrição médica e protocolo institucional quando o paciente apresentar condições clínicas adequadas.

Resultado esperado: O paciente tolera nutrição oral ou enteral prescrita sem escalada da dor dentro de 72 horas; o paciente mantém o peso dentro de ~5% do peso de admissão quando o estado clínico permitir; a tendência de albumina e pré-albumina é documentada e notificada como estável ou em melhora.

Diagnóstico de Enfermagem 4: Risco de Infecção

Risco de Infecção relacionado à pancreatite aguda: critérios de Atlanta revisados. 2 de 3: dor abdominal característica, lipase > 3× o LSN, achados de imagem característicos, evidenciado por pancreatite necrosante ao exame de imagem (necrose estéril com risco de infecção secundária); translocação de bactérias intestinais para o tecido necrótico; dispositivos invasivos (acesso venoso central, cateter arterial, sonda vesical de demora, sonda nasogástrica/nasoenteral); internação prolongada em UTI e imobilidade; hiperglicemia por estresse ou lesão pancreática.

Intervenções

  • Monitorar temperatura em intervalos compatíveis com a gravidade clínica (comumente a cada 4 horas); notificar o médico para temperatura > 38,3°C (101°F) ou < 36°C.
  • Acompanhar leucócitos, PCR e procalcitonina conforme prescrição médica.
  • Avaliar dispositivos invasivos (acesso venoso central, cateter arterial, sonda vesical de demora, sonda nasoenteral) diariamente quanto a sinais de infecção e necessidade de manutenção conforme protocolo institucional.
  • Monitorar sinais de sepse: FC > 90, FR > 20, hipotensão, alteração aguda do estado mental, hiperglicemia.
  • Avaliar sítios cirúrgicos, de CPRE e de drenos quanto a eritema, secreção, calor e deiscência em cada plantão.
  • Acompanhar glicemia a cada 4–6 horas; meta comumente de 140–180 mg/dL conforme protocolo institucional de controle glicêmico.
  • Não administrar antibióticos profiláticos na necrose estéril; articular com a equipe médica a administração de antibióticos somente quando prescritos para necrose infectada confirmada ou fortemente suspeita, conforme protocolo institucional.
  • Quando prescrito para necrose infectada, administrar carbapenens (comumente imipeném ou meropeném) no horário correto conforme prescrição médica e protocolo institucional.
  • Implementar higienização rigorosa das mãos antes e após todo contato com o paciente.
  • Realizar banho diário com clorexidina gluconato (CHG) na UTI conforme protocolo institucional; manter os bundles de prevenção de ICSRC e de CAUTI.
  • Manter cabeceira elevada a 30–45° para pacientes ventilados ou sedados com sonda nasogástrica ou nasoenteral, conforme protocolo institucional de prevenção de PAV.
  • Realizar higiene oral com clorexidina a cada 4 horas em pacientes ventilados conforme protocolo institucional de prevenção de PAV.
  • Orientar o paciente e a família sobre os sinais de infecção a serem comunicados: febre, calafrios, vermelhidão ou secreção em qualquer sítio, aumento da dor, confusão mental.
  • Educar os visitantes sobre higienização das mãos e a importância de limitar o contato à beira do leito quando o paciente estiver imunossuprimido.
  • Orientar o paciente e a família sobre o fundamento da abordagem escalonada (drenagem percutânea, seguida de necrosectomia endoscópica ou minimamente invasiva) quando necrose infectada for identificada, conforme o plano médico.
  • Notificar o médico prontamente para febre nova após o 7.º dia, instabilidade hemodinâmica ou elevação progressiva dos marcadores inflamatórios.
  • Coordenar interconsulta com radiologia intervencionista, endoscopia ou cirurgia conforme prescrição médica para drenagem guiada por imagem de necrose infectada confirmada ou WON.
  • Coordenar CPRE de urgência em até ~24 horas conforme prescrição médica e protocolo institucional para PA biliar com colangite aguda concomitante ou obstrução biliar persistente; CPRE de urgência de rotina não é indicada em toda PA biliar.

Resultado esperado: A temperatura é monitorada e notificada dentro dos parâmetros prescritos (comumente 36,5–37,5°C); a tendência de leucócitos é documentada e notificada em direção aos valores basais; ausência de febre nova, calafrios ou instabilidade hemodinâmica após 48 horas.

Diagnóstico de Enfermagem 5: Ansiedade

Ansiedade relacionada à pancreatite aguda: critérios de Atlanta revisados. 2 de 3: dor abdominal característica, lipase > 3× o LSN, achados de imagem característicos, evidenciada por dor abdominal intensa com ativação autonômica; medo do diagnóstico desconhecido, de complicações ou de morte; desconhecimento dos procedimentos hospitalares (CPRE, TC, acessos venosos centrais, possível transferência para a UTI); jejum oral prolongado e aversão alimentar; preocupações sobre transtorno por uso de álcool, recidiva e mudança de estilo de vida (quando aplicável).

Intervenções

  • Avaliar o nível de ansiedade por escala de 0–10 no início de cada plantão e em regime PRN.
  • Identificar os gatilhos referidos pelo paciente (dor, jejum oral, medo de complicações, transferência para a UTI, preocupações com uso de álcool).
  • Observar sinais físicos de ansiedade: taquicardia desproporcional ao estado clínico, agitação, movimentos repetitivos das mãos, hipervigilância.
  • Avaliar a qualidade do sono e os fatores contribuintes (dor, alarmes, iluminação, intervenções frequentes) diariamente.
  • Oferecer presença calma e tranquilizadora; comunicar-se de forma clara e em ritmo pausado.
  • Explicar os procedimentos e os achados em linguagem simples e acessível ao paciente antes de realizá-los.
  • Agrupar os cuidados para permitir períodos de repouso sem interrupções quando o estado clínico permitir.
  • Minimizar estímulos noturnos desnecessários (luzes acesas, conversas em voz alta, alarmes desnecessários) conforme protocolo institucional.
  • Facilitar a presença da família dentro da política de visitação da instituição, incluindo visitas por vídeo ou telefone quando a presença física estiver restrita.
  • Articular com capelania, serviço social ou serviço de interpretação conforme preferência do paciente e política institucional.
  • Ensinar respiração diafragmática e técnicas de ancoragem que o paciente possa utilizar de forma independente.
  • Orientar o paciente e a família sobre a pancreatite aguda: causas comuns, motivo da prescrição de fluidos e jejum oral, como é a introdução precoce da alimentação e a trajetória típica de recuperação.
  • Quando o uso de álcool for fator contribuinte, abordar a cessação em linguagem simples e sem julgamentos, e oferecer encaminhamento ao serviço social ou serviço de dependência química conforme política institucional.
  • Articular com capelania, serviço social ou serviço de saúde mental conforme protocolo institucional caso a ansiedade persista ou piore apesar das medidas não farmacológicas.
  • Notificar o médico para ansiedade grave ou persistente não responsiva às medidas não farmacológicas.

Resultado esperado: O paciente verbaliza redução da ansiedade; o paciente demonstra ao menos uma estratégia de enfrentamento (respiração diafragmática, ancoragem, música); o paciente dorme em blocos de aproximadamente 4 horas quando o estado clínico permitir.

Fisiopatologia

A pancreatite aguda (PA) tem início com a ativação prematura intra-pancreática de zimogênios digestivos (tripsinogênio → tripsina, com ativação secundária de lipase e elastase), desencadeando a autodigestão do pâncreas e dos tecidos peripancreáticos adjacentes. Cálculos biliares (~40%) e álcool (~30%) respondem por aproximadamente 70% dos casos (mnemônico I GET SMASHED: Idiopática, Cálculos biliares (Gallstones), EtOH, Trauma, Esteroides, Caxumba (Mumps)/Malignidade, Autoimune, Picada de escorpião (Scorpion sting), Hiperlipidemia/Hipercalcemia, CPRE (ERCP), Drogas). A lesão local libera citocinas inflamatórias que desencadeiam uma resposta inflamatória sistêmica (SIRS) e podem evoluir para SDRA, IRA e falência de múltiplos órgãos (FMO). A classificação de Atlanta revisada estratifica a gravidade em leve (sem falência orgânica, sem complicações), moderadamente grave (falência orgânica transitória < 48 h ou complicações locais/sistêmicas) e grave (falência orgânica persistente > 48 h, frequentemente multivisceral). A patologia varia de pancreatite intersticial edematosa (leve) a pancreatite necrosante (mortalidade de 15–30% quando a necrose se infecta). As complicações tardias incluem pseudocisto pancreático (≥ 4 semanas), necrose encapsulada (walled-off necrosis — WON) e trombose venosa esplâncnica. A predição de gravidade no dia 1 utiliza o escore BISAP (BUN > 25, Impaired mentation — alteração do nível de consciência, SIRS, Age — idade > 60, Pleural effusion — derrame pleural; escore ≥ 3 está associado à alta mortalidade), que supera os critérios de Ranson, os quais exigem 48 h para sua completude. O manejo segue as diretrizes clínicas do ACG 2024 e do AGA Institute 2018.

Referência Rápida

  • Controle da dor: PCA com opioide comumente utilizada; morfina é aceitável
  • Fluidos IV (0–24 h): Ringer Lactato, guiado por metas (WATERFALL 2022)
  • Nutrição enteral: Comumente iniciada dentro de 24–72 h quando tolerada
  • PA leve, com tolerância: Alimentação oral precoce (dieta branda, hipogordurosa) conforme prescrição médica
  • Momento da TC: 72–96 h para avaliação de necrose (exames mais precoces podem não detectá-la)

Exames Laboratoriais Comuns

Exame Valor de referência Relevância na Pancreatite
Lipase < 60 U/L (valor institucional típico) > 3× o LSN apoia o diagnóstico conforme os critérios de Atlanta revisados; mais específica e com maior duração de elevação do que a amilase. O intervalo de referência depende do método; enfermeiros registram o valor e a tendência.
Amilase 30–110 U/L Menos específica (também de origem salivar/GI); eleva-se precocemente e normaliza rapidamente. Enfermeiros registram o valor e a tendência; o médico interpreta no contexto clínico.
ALT / Provas de função hepática ALT < 35 U/L ALT > 150 U/L pode sugerir etiologia biliar; a equipe médica interpreta o padrão em conjunto com os achados de imagem e clínicos.
Triglicerídeos < 150 mg/dL > 1000 mg/dL pode ser compatível com pancreatite hipertrigliceridêmica. Enfermeiros notificam valores fora do intervalo de referência.
Cálcio (considerar cálcio corrigido) 8,5–10,5 mg/dL Valor reduzido pode predizer gravidade (saponificação de gordura). Corrigir pelo albumin ou utilizar cálcio iônico quando prescrito; hipocalcemia sintomática (sinal de Trousseau, sinal de Chvostek, tetania, QT prolongado) deve ser notificada imediatamente.
Hematócrito 36–48% Hematócrito em elevação pode refletir hemoconcentração por extravasamento capilar e sugerir gravidade. Enfermeiros acompanham valores seriados e notificam padrões preocupantes.
Ureia / Creatinina Ureia 7–20 mg/dL / Creatinina 0,6–1,2 mg/dL Conforme o ACG, elevação progressiva da ureia nas primeiras 24–48 h é um dos preditores laboratoriais mais fortes de mortalidade na PA. Enfermeiros acompanham valores seriados e notificam a tendência.
PCR < 10 mg/L > 150 mg/L em 48 h está frequentemente associado à doença grave. Enfermeiros registram o valor e a tendência; a equipe médica interpreta.
Gasometria arterial / Lactato pH 7,35–7,45 / Lactato < 2 mmol/L Auxilia na avaliação de gravidade e perfusão; acidose metabólica pode indicar choque. Enfermeiros notificam valores fora dos parâmetros prescritos e acompanham a tendência durante a reanimação.
TC com contraste (exame de imagem) Comumente realizada em 72–96 h para avaliação de necrose quando indicada pela equipe médica; exames mais precoces podem não detectá-la. O momento é decisão da equipe médica.

Medicamentos Comuns

Classe Exemplos Mecanismo de ação Principais efeitos adversos Considerações de enfermagem
Fluidos IV Ringer Lactato (RL) Cristaloide isotônico; o RL é frequentemente preferido em relação ao SF 0,9% na PA e tem sido associado a menor ocorrência de SIRS e menor acidose metabólica em dados de estudos randomizados. Sobrecarga de volume, edema pulmonar, alterações eletrolíticas dilacionais. Administrar conforme prescrição. Conforme a diretriz ACG 2024 e o estudo WATERFALL 2022, a reanimação é guiada por metas: taxa de manutenção moderada (comumente em torno de 1,5 mL/kg/h) é utilizada na PA leve a moderada; taxas mais elevadas (até ~3 mL/kg/h ou bolus de 250–500 mL/h) são reservadas para doença grave ou hipovolemia documentada, conforme prescrição médica e protocolo institucional. Enfermeiros reavaliamo estado do paciente a cada 4–6 h com base em diurese, FC, PAM, hematócrito e tendência da ureia, e apoiam a redução progressiva da infusão junto à equipe médica assim que as metas de perfusão forem atingidas.
Analgesia opioide Hidromorfona, PCA com Fentanil, Morfina Agonismo de receptores mu-opioides; analgesia central. Depressão respiratória, sedação, íleo, hipotensão, náuseas. Administrar conforme prescrição médica, orientação farmacêutica e protocolo institucional. A dor intensa na PA grave comumente requer analgesia potente; a morfina não é contraindicada na PA, apesar de ensinamentos mais antigos, pois o espasmo do esfíncter de Oddi não demonstrou relevância clínica significativa. Enfermeiros monitoram escore de dor, FR, nível de sedação e função intestinal, e escalam conforme os parâmetros prescritos.
Antiemético Ondansetrona Antagonista dos receptores 5-HT3; bloqueia o reflexo de vômito central e periférico. Prolongamento do QT, cefaleia, constipação. Administrar conforme prescrição. Enfermeiros verificam o QTc basal quando outros medicamentos que prolongam o QT estão em uso, e monitoram o alívio das náuseas, cefaleia e função intestinal. O esquema regular e o uso em regime PRN são decisões da equipe médica.
Antibióticos (somente para necrose infectada) Imipeném, Meropeném Carbapenem; β-lactâmico de amplo espectro com boa penetração no tecido pancreático. C. difficile, convulsões (imipeném em doses elevadas ou em insuficiência renal), resistência por uso excessivo. Administrar conforme prescrição médica e protocolo institucional. Conforme o ACG 2024 e o AGA 2018, antibióticos não são utilizados de forma profilática na necrose estéril; são reservados para necrose infectada confirmada ou fortemente suspeita (deterioração clínica, gás na TC, cultura positiva por PAAF). Enfermeiros monitoram resposta, alergias, efeitos adversos e surgimento de C. difficile, e apoiam a descalonagem junto à equipe médica.
IBP Pantoprazol, Esomeprazol Bloqueia irreversivelmente a H+/K+-ATPase; suprime a secreção ácida gástrica. Hipomagnesemia, risco de C. difficile, deficiência de B12 com uso prolongado. Administrar conforme prescrição. Comumente utilizado para profilaxia de úlcera de estresse na PA grave ou em pacientes de UTI conforme protocolo institucional; não é rotineiro na PA leve. Enfermeiros monitoram magnésio e padrão intestinal em terapias prolongadas.
Insulina Insulina regular (IV ou SC) Ativa receptores de insulina; promove a captação celular de glicose. Hipoglicemia, hipocalemia. Administrar conforme prescrição médica e protocolo institucional de controle glicêmico. O alvo glicêmico comumente utilizado em pacientes críticos é de 140–180 mg/dL; hiperglicemia transitória é frequente na PA. Enfermeiros monitoram glicemia capilar, potássio e sinais de hipoglicemia conforme protocolo institucional.
Reposição de cálcio Gluconato de cálcio IV Repõe o Ca2+ iônico consumido pela saponificação de gordura. Necrose tecidual por extravasamento, bradicardia, hipotensão com administração rápida. Administrar conforme prescrição quando a equipe médica indicar reposição para hipocalcemia sintomática ou bioquimicamente significativa (sinal de Trousseau, sinal de Chvostek, tetania, QT prolongado). Enfermeiros monitoram ritmo cardíaco e sítio de punção venosa, infundem na velocidade prescrita e registram a resposta.
Enzimas pancreáticas Pancrелипase (somente uso crônico) Repõe lipase, amilase e protease exócrinas. Desconforto gastrointestinal; colonopatia fibrosante pode ocorrer com doses muito elevadas em fibrose cística. Não utilizado rotineiramente na pancreatite aguda; comumente reservado para pancreatite crônica com insuficiência exócrina conforme prescrição médica. Enfermeiros administram conforme prescrito quando indicado.

Referências

  • Makic, M. B. F., & Martinez-Kratz, M. R. (Eds.). (2023). Ackley and Ladwig’s Nursing Diagnosis Handbook: An Evidence-Based Guide to Planning Care (13th ed.). Elsevier.
  • Tenner, S., Vege, S. S., Sheth, S. G., Sauer, B., Yang, A., Conwell, D. L., Yadlapati, R. H., & Gardner, T. B. (2024). ACG Clinical Guideline: Management of Acute Pancreatitis. American Journal of Gastroenterology, 119(3), 419–437.
  • Crockett, S. D., Wani, S., Gardner, T. B., Falck-Ytter, Y., & Barkun, A. N. (2018). American Gastroenterological Association Institute Guideline on Initial Management of Acute Pancreatitis. Gastroenterology, 154(4), 1096–1101.
  • de-Madaria, E., Buxbaum, J. L., Maisonneuve, P., et al. (2022). Aggressive or Moderate Fluid Resuscitation in Acute Pancreatitis (WATERFALL). New England Journal of Medicine, 387(11), 989–1000.
  • Banks, P. A., Bollen, T. L., Dervenis, C., et al. (2013). Classification of acute pancreatitis 2012: revision of the Atlanta classification and definitions by international consensus. Gut, 62(1), 102–111.

Perguntas frequentes

What is the nursing care plan for Acute Pancreatitis?

A Acute Pancreatitis nursing care plan organizes the assessment, nursing diagnoses, goals, interventions, and evaluation criteria for a patient with Acute Pancreatitis. Diagnoses are ordered by what is currently most destabilizing for the patient.

What are the priority nursing diagnoses for Acute Pancreatitis?

Priority diagnoses for Acute Pancreatitis appear in the Nursing Diagnoses section above, ordered by clinical acuity. The top diagnosis should reflect what is currently most destabilizing for this specific patient.

What is the priority nursing intervention for Acute Pancreatitis?

Priority interventions for Acute Pancreatitis are listed in the care plan above, organized by diagnosis. The most critical actions address airway, circulation, and the highest-acuity problem first.

What complications should the nurse monitor for in Acute Pancreatitis?

Complications to monitor for in Acute Pancreatitis are listed within each diagnosis section above. Trend vitals, mental status, and the condition-specific red flags described in the assessment section.

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