Plano de Cuidados de Enfermagem para Cetoacidose Diabética (CAD)
DKA

Plano de Cuidados de Enfermagem para Cetoacidose Diabética (CAD)

Plano de cuidados de enfermagem para CAD: protocolos de insulina, reposição volêmica, manejo de eletrólitos e PDF para impressão. Elaborado por enfermeiros para enfermeiros.

Plano de Cuidados de Enfermagem

Diagnóstico de Enfermagem 1: Déficit de Volume de Fluidos

Déficit de Volume de Fluidos relacionado à cetoacidose diabética (CAD): hiperglicemia (≥ 250 mg/dL), acidose metabólica (pH < 7,30, HCO3 < 18 mEq/L, gap aniônico > 12) e cetose (cetonas séricas/urinárias), evidenciado por hiperglicemia (≥ 250 mg/dL) com diurese osmótica; taquicardia (FC > 110) e hipotensão ortostática; mucosas secas, turgor cutâneo diminuído, olhos encovados; débito urinário < 0,5 mL/kg/h; perda de peso > 5% em relação ao valor basal.

Intervenções

  • Obter peso basal e repetir a pesagem diariamente na mesma balança, horário e vestimentas quando o estado clínico permitir.
  • Monitorar sinais vitais (FC, PA, PAM) em intervalos compatíveis com a gravidade clínica e o protocolo institucional; registrar a tendência.
  • Avaliar turgor cutâneo, mucosas, umidade axilar e enchimento capilar em intervalos compatíveis com a gravidade.
  • Manter controle rigoroso de balanço hídrico horário; calcular balanço acumulado conforme protocolo institucional.
  • Monitorar osmolalidade sérica, Na+, ureia e Cr conforme prescrição médica durante a fase de ressuscitação cardiopulmonar.
  • Instalar cateter vesical de demora para medição horária do débito urinário conforme prescrição médica em pacientes instáveis ou com rebaixamento do nível de consciência.
  • Administrar NaCl 0,9% 15–20 mL/kg prescrito na primeira hora e continuar o cristaloide conforme prescrição médica e protocolo institucional.
  • Administrar NaCl 0,45% prescrito na velocidade indicada pelo médico após restauração do volume e quando o Na+ corrigido estiver normal ou elevado.
  • Administrar fluido de manutenção contendo D5 prescrito quando a glicemia capilar cair abaixo de 250 mg/dL.
  • Instalar dois acessos venosos periféricos de grande calibre (16–18 G); auxiliar na obtenção de acesso central quando prescrito para instabilidade hemodinâmica.
  • Elevar a cabeceira do leito a 30° quando não houver contraindicação; evitar a posição de Trendelenburg.
  • Quando o paciente estiver alerta, orientar o paciente e a família sobre os sinais de desidratação (sede, tontura, boca seca, débito urinário reduzido) e quando buscar atendimento precocemente.
  • Orientar sobre as regras para dias de doença: manter a insulina durante a enfermidade conforme orientação médica, verificar glicemia e cetonas a cada 4 horas e utilizar líquidos sem açúcar.
  • Orientar o paciente e a família sobre a importância de carregar os medicamentos para controle glicêmico e uma identificação médica que identifique o diabetes para os socorristas.
  • Notificar o médico para débito urinário < 0,5 mL/kg/h por 2 horas consecutivas, PAM persistentemente abaixo dos parâmetros prescritos ou aumento do lactato apesar da ressuscitação prescrita.
  • Coordenar a transferência para UTI ou unidade semi-intensiva conforme protocolo institucional de CAD para o manejo contínuo do gotejamento.

Resultado: Os indicadores de perfusão são monitorados e comunicados dentro dos parâmetros prescritos (PAM, FC); o débito urinário é monitorado e comunicado conforme protocolo institucional; as mucosas e o enchimento capilar são avaliados e os achados são registrados.

Diagnóstico de Enfermagem 2: Desequilíbrio Eletrolítico

Desequilíbrio Eletrolítico relacionado à cetoacidose diabética (CAD): hiperglicemia (≥ 250 mg/dL), acidose metabólica (pH < 7,30, HCO3 < 18 mEq/L, gap aniônico > 12) e cetose (cetonas séricas/urinárias), evidenciado por déficit corporal total de potássio (3–5 mEq/kg) mascarado pela acidose; a insulinoterapia deslocará o K+ para o intracelular; diurese osmótica contínua com perdas de K+, Mg2+ e PO43−; a correção do desequilíbrio ácido-base pode reduzir o K+ sérico à medida que o pH se normaliza; risco de arritmia com K+ < 3,3 ou > 5,5.

Intervenções

  • Verificar o K+ antes de iniciar o gotejamento de insulina prescrito; rechecar a cada 2 horas inicialmente, depois a cada 4 horas quando estável, conforme protocolo institucional.
  • Manter monitorização cardíaca contínua conforme protocolo institucional; registrar tira de ritmo por turno e com alterações eletrolíticas.
  • Avaliar sintomas de hipocalemia: fraqueza muscular, câimbras nos membros inferiores, reflexos diminuídos, íleo paralítico.
  • Monitorar Mg2+, PO43− e Na+ corrigido conforme prescrição médica durante o gotejamento.
  • Verificar débito urinário adequado (> 0,5 mL/kg/h) antes de administrar a reposição de K+ prescrita.
  • Suspender o gotejamento de insulina prescrito se K+ < 3,3 mEq/L conforme ADA 2024 e protocolo institucional; retomar conforme prescrição médica após a reposição prescrita elevar o nível para ≥ 3,3.
  • Administrar KCl prescrito 20–30 mEq/L no fluido de manutenção quando K+ estiver entre 3,3–5,3 mEq/L com débito urinário adequado, conforme orientação médica.
  • Administrar KCl prescrito até 40 mEq/L (acesso central geralmente preferido conforme protocolo institucional) quando K+ < 3,3 mEq/L.
  • Administrar sulfato de magnésio IV prescrito quando o Mg2+ cair abaixo dos parâmetros estabelecidos pelo médico.
  • Administrar reposição de fosfato somente quando prescrita (geralmente reservada para PO43− < 1,0 mg/dL com sintomas conforme ADA 2024).
  • Quando o paciente estiver alerta, orientá-lo e à família sobre os sintomas de hipocalemia (fraqueza, palpitações, fadiga) e hipercalemia.
  • Orientar sobre fontes alimentares de K+ e Mg2+ (banana, batata, verduras folhosas, oleaginosas) para os cuidados pós-alta.
  • Reforçar o uso contínuo de insulina durante doenças intercorrentes conforme orientação médica para subsidiar a prevenção de crises eletrolíticas recorrentes.
  • Notificar o médico para K+ < 3,3 ou > 5,5, nova arritmia ou alterações no ECG (onda T apiculada, onda U, QT prolongado).
  • Articular com a farmácia para a reposição prescrita e verificar a infusão de K+ com limite de velocidade (geralmente máximo de 10 mEq/h em acesso periférico, até 20–40 mEq/h em acesso central com telemetria contínua conforme protocolo institucional). Observação: concentração (mEq/L) × velocidade (mL/h) determina os mEq/h infundidos.
  • Escalar hipocalemia sintomática que persista apesar da reposição prescrita; coordenar acesso central e telemetria contínua conforme protocolo institucional.

Resultado: O K+ sérico é monitorado e comunicado dentro dos parâmetros prescritos durante todo o tratamento; o ritmo cardíaco é monitorado e as alterações são comunicadas; Mg2+ e PO43− são acompanhados e comunicados conforme protocolo institucional.

Diagnóstico de Enfermagem 3: Alteração Endócrina

Alteração Endócrina relacionada à cetoacidose diabética (CAD): hiperglicemia (≥ 250 mg/dL), acidose metabólica (pH < 7,30, HCO3 < 18 mEq/L, gap aniônico > 12) e cetose (cetonas séricas/urinárias), evidenciada por deficiência absoluta ou relativa de insulina; excesso de hormônios contrarreguladores (glucagon, cortisol, catecolaminas); gliconeogênese e glicogenólise hepáticas; gap aniônico > 10 mEq/L com cetonas positivas; variabilidade do esquema domiciliar (bomba de insulina, basal/bolus ou inibidor do SGLT2).

Intervenções

  • Verificar a glicemia capilar à beira do leito a cada hora durante o gotejamento IV de insulina prescrito conforme protocolo institucional.
  • Realizar avaliação neurológica (ECG, cefaleia, vômitos novos, bradicardia com hipertensão) a cada 1–2 horas conforme protocolo institucional, especialmente em pacientes menores de 21 anos ou com correção rápida da glicemia ou osmolalidade.
  • Monitorar gap aniônico e HCO3 conforme prescrição médica durante o gotejamento.
  • Acompanhar β-hidroxibutirato sérico ou capilar conforme prescrição médica quando disponível.
  • Revisar o esquema de insulina domiciliar e verificar o horário da última dose na admissão.
  • Avaliar a causa precipitante: sintomas de infecção, sintomas de IAM, uso recente de corticoide, uso de inibidor do SGLT2.
  • Administrar o gotejamento de insulina regular prescrito a 0,1 unit/kg/h (ou 0,05 unit/kg/h para CAD leve ou CAD euglicêmica relacionada ao SGLT2 conforme prescrição médica) após verificação do K+ conforme protocolo institucional.
  • Apoiar a queda de glicemia prescrita de 50–75 mg/dL/h; comunicar velocidade de queda mais rápida para que o médico possa ajustar o gotejamento conforme protocolo institucional.
  • Administrar fluidos contendo D5 prescritos quando a glicemia cair abaixo de 250 mg/dL; o gotejamento de insulina geralmente continua conforme ADA 2024. Os protocolos pediátricos geralmente adicionam dextrose mais precocemente (glicemia < 300 mg/dL) para apoiar a prevenção de edema cerebral — consultar o protocolo institucional pediátrico de CAD.
  • Apoiar a manutenção da glicemia dentro dos parâmetros prescritos (comumente 150–200 mg/dL) até o fechamento do GA, ajustando o fluido com dextrose prescrito, sem interromper o gotejamento.
  • Coordenar a transição SC prescrita quando o médico documentar os critérios de resolução (pH > 7,3, HCO3 > 18, GA ≤ 12, tolerando dieta oral).
  • Sobrepor a insulina basal SC prescrita ao gotejamento IV por 1–2 horas antes da descontinuação conforme ADA 2024 e protocolo institucional.
  • Orientar as regras para dias de doença: manter a insulina durante a enfermidade conforme orientação médica; verificar glicemia e cetonas a cada 2–4 horas; utilizar líquidos sem açúcar; contatar o médico para cetonas grandes ou vômitos por mais de 4 horas.
  • Reforçar a técnica: rodízio dos locais de aplicação, dosagem, seringa versus caneta versus bomba e armazenamento da insulina.
  • Orientar sobre o uso do monitor contínuo de glicose (MCG) e os limites de alarme quando o paciente o utiliza.
  • Fornecer um plano de ação escrito para CAD e um cartão para dias de doença que o paciente possa guardar em casa.
  • Notificar o médico quando o GA fechar para que a transição SC prescrita possa ser iniciada e o gotejamento IV sobreposto conforme protocolo institucional.
  • Coordenar consulta com educador em diabetes e endocrinologia antes da alta conforme protocolo institucional.

Resultado: A glicemia capilar horária é registrada e as tendências são comunicadas dentro dos parâmetros prescritos; a glicemia é mantida dentro dos parâmetros prescritos (comumente 150–200 mg/dL) até o fechamento do gap aniônico; a tendência do gap aniônico e do HCO3 é monitorada e comunicada conforme protocolo institucional.

Diagnóstico de Enfermagem 4: Risco de Infecção

Risco de Infecção relacionado à cetoacidose diabética (CAD): hiperglicemia (≥ 250 mg/dL), acidose metabólica (pH < 7,30, HCO3 < 18 mEq/L, gap aniônico > 12) e cetose (cetonas séricas/urinárias), evidenciado por hiperglicemia que pode comprometer a função neutrofílica; cateter venoso central e sonda vesical de demora geralmente necessários para o tratamento; possível infecção precipitante não diagnosticada (ITU, pneumonia, celulite); leucocitose pode ser de origem estressora e obscurecer o foco; úlcera de pé diabético ou lesão cutânea pode ser fonte de infecção.

Intervenções

  • Obter histórico direcionado à fonte de infecção: disúria, tosse, dor abdominal, ferida no pé, procedimento recente.
  • Inspecionar pele, espaços interdigitais, períneo e sítios de acesso venoso na admissão e a cada turno.
  • Monitorar temperatura a cada 4 horas; comunicar febre nova ou hipotermia.
  • Acompanhar leucócitos, lactato e procalcitonina (quando disponível) nas primeiras 24 horas.
  • Revisar urinálise, radiografia de tórax, hemoculturas e uroculturas da admissão.
  • Coletar hemocultura, urocultura e (quando indicado) cultura de escarro ou de ferida antes dos antibióticos prescritos, quando possível conforme protocolo institucional.
  • Administrar antibióticos empíricos prescritos dentro de 1 hora da suspeita de sepse conforme prescrição médica e protocolo institucional de sepse.
  • Manter técnica asséptica em todas as inserções de cateter, trocas de curativo e cuidados com a sonda vesical conforme protocolo institucional.
  • Realizar higiene oral rigorosa a cada 4 horas; usar clorexidina oral conforme protocolo institucional de prevenção de PAV quando o paciente estiver intubado.
  • Reposicionar e inspecionar a pele nas regiões de proeminências ósseas a cada 2 horas; descarregar os pontos de pressão conforme protocolo institucional.
  • Orientar sobre inspeção dos pés, verificação diária da pele e notificação imediata ao médico para qualquer nova ferida.
  • Orientar sobre o calendário vacinal conforme recomendações do CDC e do ACIP: influenza anual, pneumocócica e reforços de COVID.
  • Reforçar a higiene das mãos e a evitação de contato com pessoas doentes quando possível.
  • Notificar o médico para febre nova, aumento do lactato, hipotensão apesar dos fluidos prescritos ou piora dos leucócitos.
  • Coordenar consulta com infectologia conforme protocolo institucional para casos refratários ou microrganismos incomuns.

Resultado: A temperatura é monitorada e comunicada dentro dos parâmetros prescritos; os resultados de culturas são revisados com a equipe médica e os antibióticos prescritos são administrados conforme orientação; a tendência dos leucócitos é registrada e comunicada após a ressuscitação.

Diagnóstico de Enfermagem 5: Déficit de Conhecimento

Déficit de Conhecimento relacionado à cetoacidose diabética (CAD): hiperglicemia (≥ 250 mg/dL), acidose metabólica (pH < 7,30, HCO3 < 18 mEq/L, gap aniônico > 12) e cetose (cetonas séricas/urinárias), evidenciado por primeiro episódio de CAD em diabetes recém-diagnosticado; CAD recorrente — mais de uma internação em 12 meses; paciente verbaliza incerteza sobre a dosagem de insulina durante doença intercorrente; concepção equivocada de que a insulina deve ser suspensa quando não está se alimentando; baixo letramento em saúde ou barreira linguística.

Intervenções

  • Avaliar o conhecimento basal sobre diabetes, episódios prévios de CAD e capacidade de autocuidado.
  • Avaliar o letramento em saúde, a preferência de idioma e a necessidade de serviços de interpretação.
  • Avaliar determinantes sociais: custo da insulina, transporte, segurança alimentar, estabilidade habitacional.
  • Identificar o cuidador principal ou a pessoa de suporte e incluí-los nas orientações com consentimento do paciente.
  • Utilizar o método teach-back para cada conceito-chave (regras para dias de doença, dosagem, verificação de cetonas) conforme protocolo institucional.
  • Fornecer plano para dias de doença e cartão de ação para CAD escritos, no idioma adequado.
  • Demonstrar o preparo da insulina, os locais de aplicação, o uso da caneta e a operação do glicosímetro; solicitar ao paciente que demonstre de volta conforme protocolo institucional.
  • Coordenar a conexão com programas de assistência ao paciente dos fabricantes ou opções de insulina de baixo custo antes da alta conforme fluxo de trabalho do serviço social institucional.
  • Regra para dias de doença nº 1: Manter a insulina basal conforme orientação médica mesmo quando não estiver se alimentando; alterações de dose são feitas com o médico, não de forma independente.
  • Regra para dias de doença nº 2: Verificar a glicemia a cada 2–4 horas durante a enfermidade; verificar cetonas quando a glicemia estiver acima de 240 mg/dL ou com sintomas.
  • Regra para dias de doença nº 3: Ingerir líquidos sem açúcar (água, caldo, refrigerante diet) para manter a hidratação.
  • Regra para dias de doença nº 4: Contatar o médico para cetonas grandes ou moderadas, vômitos por mais de 4 horas, glicemia > 300 em duas verificações ou incapacidade de manter a ingestão de líquidos.
  • Orientar sobre os sinais de alerta de CAD que requerem acionamento do SAMU ou avaliação na UE: dor abdominal intensa, respiração rápida e profunda, confusão mental, hálito frutado, vômitos com glicemia elevada.
  • Revisar o fator de correção e os conceitos básicos de contagem de carboidratos quando o paciente estiver em esquema basal/bolus.
  • Orientar sobre o armazenamento adequado da insulina: refrigerar frasco fechado, manter em temperatura ambiente após aberto e descartar após o período de uso indicado pelo fabricante.
  • Coordenar acompanhamento com endocrinologia e educador em diabetes em 7–14 dias após a alta conforme protocolo institucional.
  • Encaminhar ao serviço social para questões de acessibilidade à insulina, transporte ou insegurança alimentar identificadas durante a internação.
  • Registrar a conclusão do teach-back e as lacunas de conhecimento remanescentes no sumário de alta.

Resultado: O paciente verbaliza as regras para dias de doença antes da alta quando estiver em condições de receber orientações; o paciente demonstra a técnica de aplicação de insulina e a monitorização da glicemia conforme protocolo de teach-back institucional; o paciente identifica os sinais de CAD e quando buscar atendimento de emergência.

Fisiopatologia

A cetoacidose diabética (CAD) é uma crise hiperglicêmica aguda e potencialmente fatal, definida pela tríade de hiperglicemia (≥ 250 mg/dL), acidose metabólica (pH < 7,30, HCO3 < 18 mEq/L, gap aniônico > 12) e cetose. Historicamente uma complicação do diabetes mellitus tipo 1 (DM1), a CAD é cada vez mais reconhecida no DM2 e na CAD euglicêmica precipitada por inibidores do SGLT2. Os fatores precipitantes mais comuns incluem infecção (o gatilho mais frequente), omissão ou dose inadequada de insulina, IAM, pancreatite, álcool, gestação e diabetes de início recente. Do ponto de vista fisiopatológico, a deficiência absoluta ou relativa de insulina associada ao excesso de hormônios contrarreguladores (glucagon, catecolaminas, cortisol, hormônio do crescimento) desencadeia lipólise descontrolada, liberando ácidos graxos livres (AGL) que o fígado converte em cetoácidos (β-hidroxibutirato, acetoacetato). A acidose metabólica resultante é parcialmente compensada pelas respirações de Kussmaul. Concomitantemente, a hiperglicemia provoca diurese osmótica, causando depleção volêmica grave (déficit típico de 5 a 9 L) e perdas significativas de Na+, K+, Mg2+ e fosfato. A CAD distingue-se do estado hiperglicêmico hiperosmolar (EHH), que se apresenta com glicemia mais elevada (> 600 mg/dL), osmolalidade mais alta (> 320 mOsm/kg), cetose mínima e sem acidose significativa (pH > 7,30, HCO3 > 18 mEq/L, cetonúria mínima). Conforme os Standards of Care da ADA 2024, o tratamento baseia-se em reposição volêmica, infusão IV de insulina (sem bolus), reposição agressiva de K+ e identificação do fator precipitante; os enfermeiros apoiam essas terapias prescritas por meio de avaliação, administração conforme prescrição, monitorização e escalonamento conforme protocolo institucional.

Referência Rápida

  • Queda da glicemia (prescrita): 50–75 mg/dL/h; adicionar dextrose quando < 250
  • Fluidos iniciais (prescritos): SF 0,9% 15–20 mL/kg na primeira hora
  • Gotejamento de insulina (prescrito): 0,1 unit/kg/h após verificação do K+
  • Reposição de K+: Geralmente iniciada quando K+ < 5,3 com débito urinário adequado
  • Bicarbonato (prescrito): Geralmente reservado para pH < 6,9

Exames Laboratoriais Comuns

Exame Valor de referência Significado na CAD
Glicose 70–110 mg/dL ≥ 250 mg/dL corrobora o diagnóstico; os enfermeiros realizam verificações horárias à beira do leito durante o gotejamento de insulina e acompanham a tendência conforme prescrição médica e protocolo institucional
GSA / GSV pH 7,35–7,45, HCO3 22–26 pH < 7,30 e HCO3 < 18 são compatíveis com acidose; a gasometria venosa é aceitável conforme protocolo institucional. Os enfermeiros acompanham os valores seriados e comunicam os achados à equipe médica.
Gap aniônico 8–12 mEq/L GA > 12 (corrigido para albumina) corrobora o diagnóstico; conforme ADA 2024, o fechamento do GA define a resolução da CAD, e não a normalização da glicemia. Os enfermeiros acompanham o GA e comunicam o fechamento à equipe médica.
Cetonas séricas/urinárias Negativo O β-hidroxibutirato é o marcador preferencial (≥ 3 mmol/L é compatível com CAD); as cetonas urinárias têm retardo e podem persistir após a resolução; portanto, os enfermeiros utilizam a tendência, e não a presença ou ausência isolada, no raciocínio clínico
Na+ 135–145 mEq/L Hiponatremia aparente por desvio osmótico é comum; o Na+ corrigido pode ser estimado adicionando 1,6 mEq/L para cada 100 mg/dL de glicemia acima de 100. Os enfermeiros comunicam os valores corrigidos à equipe médica.
K+ 3,5–5,0 mEq/L O K+ cai rapidamente após o início da insulina; os enfermeiros verificam o K+ antes de iniciar o gotejamento e rechecam conforme protocolo institucional. Conforme ADA 2024, a insulina é geralmente suspensa para K+ < 3,3 e o KCl é geralmente adicionado quando K+ < 5,3 com débito urinário adequado.
Ureia / Cr 7–20 / 0,6–1,2 mg/dL Elevação é comum por depleção volêmica; os enfermeiros acompanham os valores para subsidiar a reavaliação da resposta à hidratação pela equipe médica
Osmolalidade sérica 275–295 mOsm/kg Calculada como 2(Na) + glicose/18 + ureia/2,8; > 320 pode sugerir sobreposição com EHH e deve levar à reavaliação pelo médico
Lactato < 2 mmol/L Elevação pode subsidiar a avaliação de contribuição séptica ou de choque para a acidose com gap aniônico aumentado; os enfermeiros acompanham os valores seriados e comunicam os achados
Hemograma Leucócitos 4,5–11 k/μL Leucocitose (> 15 k) é comum por estresse mesmo sem infecção; os enfermeiros comunicam os valores e revisam os resultados de culturas com a equipe médica
Mg2+ / PO43− 1,7–2,2 / 2,5–4,5 mg/dL Ambos são perdidos na diurese osmótica; os enfermeiros administram a reposição prescrita e comunicam a depleção sintomática à equipe médica. A reposição de fosfato não é rotineira; a ADA 2024 a reserva para PO4 < 1,0 com disfunção cardíaca ou respiratória.

Medicamentos Comuns

Classe Exemplos Mecanismo de ação Principais efeitos adversos Considerações de enfermagem
Insulina regular IV Insulina regular 0,1 unit/kg/h em infusão contínua (conforme prescrição médica) Suprime a lipólise, a cetogênese hepática e a gliconeogênese; promove a captação celular de glicose Hipoglicemia, hipocalemia (desvio intracelular de K+), edema cerebral (pediátrico) Administrar conforme prescrito de acordo com a prescrição médica, orientação da farmácia e protocolo institucional. Conforme ADA 2024, a insulina IV é administrada em infusão contínua (sem bolus). Os enfermeiros verificam o K+ antes do início e rechecam conforme protocolo institucional; a insulina é geralmente suspensa para K+ < 3,3. A glicemia horária à beira do leito é registrada e as tendências são comunicadas. Uma taxa de 0,05 unit/kg/h pode ser selecionada pelo médico para CAD leve ou CAD euglicêmica relacionada ao SGLT2 com glicemia < 250 na admissão (nesse cenário, fluido contendo D5 é geralmente prescrito desde o início).
Cristaloide isotônico NaCl 0,9% (SF) 15–20 mL/kg na primeira hora, depois 250–500 mL/h (conforme prescrição médica) Restaura o volume intravascular; apoia a perfusão renal e a distribuição de insulina aos tecidos Sobrecarga hídrica (ICC, DRC estágio 5), acidose hiperclorêmica com grande volume de SF Administrar conforme prescrito. O médico frequentemente faz a transição para NaCl 0,45% quando o Na+ corrigido está normal ou elevado; os enfermeiros mantêm controle rigoroso de balanço hídrico, ausculta pulmonar em intervalos compatíveis com a gravidade clínica e comunicam novos estertores ou aumento das pressões inspiratórias de pico conforme protocolo institucional.
Fluido contendo dextrose D5 + NaCl 0,45% 150–250 mL/h quando glicemia < 250 (conforme prescrição médica) Permite que a infusão de insulina prescrita continue fechando o gap aniônico sem precipitar hipoglicemia Hiperglicemia de rebote se o gotejamento de insulina for interrompido prematuramente Administrar conforme prescrito. Conforme ADA 2024, o gotejamento de insulina geralmente continua com adição de dextrose, em vez de ser interrompido na normalização da glicemia; os enfermeiros monitoram a glicemia horária e comunicam valores que se aproximam de 250 mg/dL para que o médico possa ajustar a prescrição do fluido com dextrose.
Cloreto de potássio KCl 20–40 mEq/L IV quando K+ 3,3–5,3 (conforme prescrição médica e protocolo institucional) Repõe o déficit corporal total (3–5 mEq/kg); compensa o desvio intracelular de K+ induzido pela insulina Hipercalemia por reposição excessiva, arritmia cardíaca, dor no sítio de infusão em alta concentração Administrar conforme prescrito. A hipocalemia é uma das principais causas de mortalidade evitável na CAD; os enfermeiros verificam o K+ antes de iniciar a insulina, rechecam a cada 2 horas inicialmente conforme protocolo institucional e comunicam valores fora dos parâmetros prescritos. A insulina é geralmente suspensa para K+ < 3,3 até que a reposição prescrita eleve o nível.
Fosfato K-fosfato 20–30 mEq em 24 h (conforme prescrição médica) Restaura o ATP celular e o 2,3-DPG; reservado para depleção grave Hipocalcemia, hipomagnesemia, calcificação de tecidos moles Administrar conforme prescrito. Conforme ADA 2024, a reposição é reservada para PO4 < 1,0 mg/dL com disfunção cardíaca ou respiratória; a reposição rotineira não é recomendada. Os enfermeiros comunicam a depleção sintomática à equipe médica.
Bicarbonato de sódio NaHCO3 100 mEq + KCl 20 mEq em 400 mL de água estéril IV em 2 h; pode ser repetido a cada 2 h até pH ≥ 7,0 (conforme prescrição médica) Eleva o pH sérico; geralmente reservado para acidose grave para apoiar a estabilidade cardiovascular Acidose paradoxal do SNC, hipocalemia, hipocalcemia, retardo no clareamento de cetonas Administrar conforme prescrito. Conforme ADA 2024, o bicarbonato é geralmente reservado para pH < 6,9; o KCl co-administrado apoia a queda de K+ pós-bicarbonato. Os enfermeiros rechecam o K+ após a dose conforme protocolo institucional e comunicam valores fora dos parâmetros prescritos.
Insulina subcutânea (transição) Basal de ação prolongada (glargina, detemir) + ação rápida (lispro, asparte) (conforme prescrição médica) Fornece cobertura basal sustentada para manter a supressão da cetogênese após a interrupção do gotejamento IV Hipoglicemia, CAD de rebote se o gotejamento for interrompido sem sobreposição Administrar conforme prescrito. Conforme ADA 2024, a dose basal SC geralmente se sobrepõe ao gotejamento IV por 1–2 horas antes da descontinuação; a transição é geralmente prescrita quando pH > 7,3, HCO3 > 18, GA ≤ 12 e o paciente tolera dieta oral. Os enfermeiros confirmam a sobreposição e comunicam o atendimento aos critérios à equipe médica.
Heparina (profilática) Enoxaparina 40 mg SC ao dia ou HNF 5.000 unidades SC de 8/8 h (conforme prescrição médica) Profilaxia de TEV; a CAD é um estado hipercoagulável com estase venosa por depleção volêmica Sangramento, TIH (raro com doses profiláticas) Administrar conforme prescrito. Os enfermeiros avaliam sinais de sangramento ativo, suspendem para procedimentos conforme protocolo institucional e comunicam função renal (ClCr < 30) ou IMC > 40 para subsidiar a decisão de ajuste de dose pelo médico conforme protocolo institucional.

Referências

  • Makic, M. B. F., & Martinez-Kratz, M. R. (Eds.). (2023). Ackley and Ladwig’s Nursing Diagnosis Handbook: An Evidence-Based Guide to Planning Care (13th ed.). Elsevier.
  • American Diabetes Association. (2024). Standards of Care in Diabetes—2024. Diabetes Care, 47(Suppl. 1), S1–S322.
  • Kitabchi, A. E., Umpierrez, G. E., Miles, J. M., & Fisher, J. N. (2009). Hyperglycemic crises in adult patients with diabetes. Diabetes Care, 32(7), 1335–1343.
  • Umpierrez, G., & Korytkowski, M. (2016). Diabetic emergencies — ketoacidosis, hyperglycaemic hyperosmolar state and hypoglycaemia. Nature Reviews Endocrinology, 12(4), 222–232.

Perguntas frequentes

What is the nursing care plan for DKA?

A DKA nursing care plan organizes the assessment, nursing diagnoses, goals, interventions, and evaluation criteria for a patient with Diabetic Ketoacidosis (DKA). Diagnoses are ordered by what is currently most destabilizing for the patient.

What are the priority nursing diagnoses for DKA?

Priority diagnoses for DKA appear in the Nursing Diagnoses section above, ordered by clinical acuity. The top diagnosis should reflect what is currently most destabilizing for this specific patient.

What is the priority nursing intervention for DKA?

Priority interventions for DKA are listed in the care plan above, organized by diagnosis. The most critical actions address airway, circulation, and the highest-acuity problem first.

What complications should the nurse monitor for in DKA?

Complications to monitor for in DKA are listed within each diagnosis section above. Trend vitals, mental status, and the condition-specific red flags described in the assessment section.

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