Plano de Cuidados de Enfermagem para Sepse e Choque Séptico
Sepsis

Plano de Cuidados de Enfermagem para Sepse e Choque Séptico

Plano de cuidados de enfermagem para sepse e choque séptico: manejo de infecção, monitorização hemodinâmica e PDF imprimível. Desenvolvido por enfermeiros para enfermeiros.

Plano de Cuidados de Enfermagem

Diagnóstico de Enfermagem 1: Alteração da Perfusão Tecidual

Alteração da Perfusão Tecidual relacionada à Sepse (definição Sepsis-3: disfunção orgânica com risco de vida por resposta desregulada do hospedeiro à infecção); choque séptico se hipotensão persistente com necessidade de vasopressores para manter PAM ≥ 65 com lactato > 2 mmol/L evidenciada por PAM < 65 mmHg apesar de ressuscitação cristaloide prescrita; Lactato sérico > 2 mmol/L (inicial 4,2 mmol/L); Extremidades com moteamento e frias com tempo de enchimento capilar > 3 seg; Débito urinário < 0,5 mL/kg/h por 2 horas consecutivas; Alteração do nível de consciência, confusão de início recente.

Intervenções

  • Monitorar PAM continuamente por linha arterial conforme protocolo institucional; documentar nos intervalos correspondentes à atividade de titulação.
  • Coletar lactato sérico no reconhecimento e repetir em 2–4 horas conforme prescrição médica; acompanhar a tendência até que esteja dentro dos parâmetros prescritos.
  • Mensurar débito urinário a cada hora por sonda vesical de demora; notificar o médico para DU < 0,5 mL/kg/h por 2 horas consecutivas. DU sustentado < 0,5 mL/kg/h por ≥ 6 h pode satisfazer o critério de débito urinário para IRA Estágio 1 pelo KDIGO.
  • Avaliar tempo de enchimento capilar, moteamento cutâneo (escore de moteamento 0–5) e temperatura periférica nos intervalos compatíveis com a acuidade clínica.
  • Avaliar nível de consciência, orientação e comportamento a cada 1–2 horas utilizando ECG ou A&O × 4 conforme protocolo institucional.
  • Monitorar pressão venosa central (PVC) e medidas dinâmicas (VPP, VVS, elevação passiva dos membros inferiores) quando disponíveis para subsidiar a avaliação de responsividade a fluidos.
  • Administrar cristaloide prescrito (comumente bolus inicial de 30 mL/kg de solução balanceada nas primeiras 3 horas conforme SSC 2021) conforme prescrição médica e protocolo institucional; monitorar PAM, tendência do lactato, ausculta pulmonar e débito urinário após cada bolus.
  • Administrar norepinefrina conforme prescrito por acesso central quando disponível; conforme SSC 2021, o início do vasopressor não deve ser retardado enquanto se aguarda acesso central. A administração periférica de curto prazo por acesso venoso periférico calibroso em veia proximal do membro superior é aceitável conforme política institucional, com monitorização ativa para extravasamento.
  • Administrar vasopressina conforme prescrito quando associada ao esquema com norepinefrina (uma faixa de gatilho comum é norepinefrina em aproximadamente 0,1–0,5 mcg/kg/min, conforme instituição) como infusão em dose fixa (sem titulação).
  • Monitorar continuamente os sítios de infusão de vasopressores quanto a palidez, dor ou frialdade; comunicar conforme protocolo institucional e administrar fentolamina conforme prescrito em caso de extravasamento.
  • Manter cabeceira a 30° salvo contraindicação e reposicionar conforme protocolo institucional.
  • Orientar o paciente e a família sobre o ambiente da UTI, monitores e cateteres de vasopressores; explicar em linguagem acessível o significado dos alarmes mais comuns.
  • Educar a família sobre a meta de PAM dentro dos parâmetros prescritos, o papel do suporte vasopressor e o significado da expressão "desmame do vasopressor".
  • Orientar o paciente (quando acordado) a comunicar imediatamente tontura, dor torácica, palpitações ou alterações visuais recentes.
  • Achados como PAM abaixo dos parâmetros prescritos apesar de múltiplos vasopressores, falha na depuração do lactato ou novo choque refratário a vasopressores devem motivar notificação urgente ao médico. O choque refratário pode embasar a consideração de hidrocortisona conforme SSC 2021.
  • Coordenar com a equipe médica o controle do foco infeccioso (drenagem, desbridamento, retirada de cateter) assim que clinicamente e logisticamente viável.
  • Notificar o médico para lactato sustentado > 4 mmol/L, anúria ou nova alteração do estado mental. Coordenar transferência para nível de monitorização ou cuidado superior conforme protocolo institucional quando indicado.

Resultado: PAM é monitorada e comunicada dentro dos parâmetros prescritos sob suporte vasopressor titulado; tendência do lactato é documentada e comunicada à equipe médica; débito urinário é monitorado e comunicado conforme protocolo institucional.

Diagnóstico de Enfermagem 2: Hipertermia

Hipertermia relacionada à Sepse (definição Sepsis-3: disfunção orgânica com risco de vida por resposta desregulada do hospedeiro à infecção); choque séptico se hipotensão persistente com necessidade de vasopressores para manter PAM ≥ 65 com lactato > 2 mmol/L evidenciada por Temperatura > 38,3 °C (101 °F) ou < 36 °C (96,8 °F); Calafrios, diaforese ou tremores; Pele quente e corada (fase hipertérmica) ou fria e úmida (fase hipotérmica); Taquicardia desproporcional à temperatura; Relato de calafrios, mal-estar ou "sensação de frio nos ossos".

Intervenções

  • Mensurar temperatura central (vesical, esofágica ou retal) nos intervalos compatíveis com a acuidade clínica e o protocolo institucional durante a ressuscitação ativa.
  • Identificar e documentar o foco infeccioso suspeito na admissão (pulmões, urina, abdome, pele/tecidos moles, bacteremia primária, SNC, cateter).
  • Avaliar presença de calafrios, tremores, diaforese e relato de calafrios pelo paciente.
  • Monitorar FC, FR e SpO2 em relação à temperatura.
  • Reconhecer a sepse hipotérmica (sepse fria) como fenótipo de maior mortalidade e comunicar conforme protocolo institucional.
  • Coordenar a coleta de ≥ 2 pares de hemoculturas de 2 sítios distintos (periférico mais cateter, ou 2 periféricos) antes dos antibióticos quando não houver atraso significativo previsto, conforme SSC 2021 e protocolo institucional.
  • Administrar antibióticos empíricos de amplo espectro conforme prescrição dentro da janela orientada pelo médico (comumente dentro de 1 hora do reconhecimento para choque séptico ou sepse provável conforme o bundle hora-1; dentro de 3 horas para sepse possível sem choque enquanto a investigação está em andamento) conforme protocolo institucional.
  • Aplicar banho morno, cobertores de resfriamento ou manejo direcionado da temperatura conforme prescrição para T > 39,5 °C; cobertores aquecidos ou aquecedor de ar forçado conforme prescrição para T < 36 °C.
  • Administrar paracetamol programado conforme prescrição para controle do desconforto febril; esclarecer com o médico quando AINEs forem considerados na presença de IRA ou risco de hemorragia digestiva.
  • Repor fluidos conforme prescrição durante a diaforese da defervescência; documentar as perdas insensíveis.
  • Explicar a razão de coletar culturas antes dos antibióticos e a importância de completar o esquema antibiótico prescrito.
  • Educar a família sobre a diferença entre febre como resposta de defesa e temperatura perigosamente elevada; tranquilizar que a febre isolada não equivale à piora clínica.
  • Orientar o paciente (quando acordado) a comunicar imediatamente novos calafrios, tremores ou sensação de frio apesar dos cobertores aquecidos.
  • Notificar o médico pela ausência de defervescência em 48–72 h com antibióticos adequados ou por novo quadro de sepse fria.
  • Coordenar com infectologia e farmácia o desescalonamento de antibióticos em 48–72 h com base nos resultados das culturas e na tendência da PCT conforme protocolo institucional.

Resultado: Temperatura central é monitorada e comunicada dentro dos parâmetros prescritos; calafrios, tremores e nova diaforese são avaliados e comunicados; FC é monitorada conforme a tendência da temperatura; alterações são comunicadas conforme protocolo institucional.

Diagnóstico de Enfermagem 3: Déficit de Volume de Fluidos

Déficit de Volume de Fluidos relacionado à Sepse (definição Sepsis-3: disfunção orgânica com risco de vida por resposta desregulada do hospedeiro à infecção); choque séptico se hipotensão persistente com necessidade de vasopressores para manter PAM ≥ 65 com lactato > 2 mmol/L evidenciado por PAM < 65 mmHg antes da ressuscitação; FC > 110 bpm com pressão de pulso estreita; Extravasamento capilar com edema periférico bilateral e edema pulmonar (paradoxal); Sequestro no terceiro espaço: anasarca, ascite, edema em regiões de declive; Mucosas secas, redução do turgor cutâneo (fase inicial).

Intervenções

  • Manter registro rigoroso de balanço hídrico horário; calcular balanço acumulado por turno e em 24/48/72 horas conforme protocolo institucional.
  • Comunicar as medidas dinâmicas de responsividade a fluidos (elevação passiva dos membros inferiores, variação da pressão de pulso, variação do volume sistólico) antes de cada bolus adicional quando disponíveis.
  • Monitorar sinais de extravasamento capilar: edema periférico de rápida instalação, anasarca, edema conjuntival, edema escrotal ou labial.
  • Auscultar murmúrio vesicular nos intervalos compatíveis com a acuidade clínica durante a ressuscitação; comunicar novos estertores ou aumento da demanda de oxigênio.
  • Acompanhar tendência de ureia, creatinina, sódio, cloreto e bicarbonato conforme prescrição médica durante a ressuscitação ativa.
  • Administrar cristaloide prescrito (comumente bolus inicial de 30 mL/kg de solução balanceada nas primeiras 3 horas conforme SSC 2021) conforme prescrição médica e protocolo institucional.
  • Após o bolus inicial, administrar fluidos adicionais conforme prescrito quando a avaliação dinâmica indicar responsividade a fluidos.
  • Coordenar com a equipe médica quando a PAM não responde apenas a fluidos; o início de vasopressores pode ser considerado em vez de prosseguir com bolus repetidos.
  • Garantir acesso venoso adequado (comumente dois acessos periféricos calibrosos ou acesso central para vasopressores) conforme protocolo institucional.
  • Administrar albumina 5% conforme prescrito para pacientes que receberam grande volume de cristaloide (comumente > 4–6 L) conforme recomendação fraca da SSC 2021 e prescrição médica.
  • Educar o paciente e a família sobre os objetivos duais de restaurar a perfusão e evitar sobrecarga volêmica; explicar por que o edema nem sempre significa "excesso de fluido".
  • Orientar o paciente (quando acordado) a comunicar imediatamente nova dispneia, opressão torácica ou sensação de afogamento.
  • Explicar o papel do peso diário e do balanço hídrico após a estabilização, especialmente durante a fase de de-ressuscitação.
  • Notificar o médico para balanço hídrico positivo > 10% do peso corporal, novo edema pulmonar ou piora da oxigenação apesar de hipotensão em curso.
  • Coordenar a de-ressuscitação (diurese ou ultrafiltração) conforme prescrição médica após restauração da perfusão e controle do foco infeccioso.

Resultado: PAM é monitorada e comunicada dentro dos parâmetros prescritos após ressuscitação cristaloide prescrita; FC é monitorada conforme melhora da tendência; pressão de pulso é avaliada e comunicada; débito urinário é monitorado e comunicado conforme protocolo institucional.

Diagnóstico de Enfermagem 4: Comprometimento da Troca Gasosa

Comprometimento da Troca Gasosa relacionado à Sepse (definição Sepsis-3: disfunção orgânica com risco de vida por resposta desregulada do hospedeiro à infecção); choque séptico se hipotensão persistente com necessidade de vasopressores para manter PAM ≥ 65 com lactato > 2 mmol/L evidenciado por Taquipneia > 22/min (critério qSOFA); Aumento progressivo da demanda de oxigênio (por exemplo, cateter nasal → CNAF); Relação PaO2/FiO2 < 300 (SDRA leve < 300, moderada < 200, grave < 100); Infiltrados bilaterais à radiografia de tórax não explicados por insuficiência cardíaca; Uso de musculatura acessória, tiragens intercostais.

Intervenções

  • Monitorar SpO2 continuamente e documentar FR, amplitude, esforço respiratório e uso de musculatura acessória nos intervalos compatíveis com a acuidade clínica e o protocolo institucional.
  • Calcular e acompanhar a relação PaO2/FiO2 a cada gasometria arterial; comunicar tendência de piora à equipe médica.
  • Auscultar murmúrio vesicular nos intervalos compatíveis com a acuidade clínica; documentar distribuição de estertores, sibilos ou ausência de sons.
  • Revisar imagens de tórax seriadas para infiltrados bilaterais não explicados por insuficiência cardíaca quando disponíveis.
  • Monitorar gasometria arterial conforme prescrição durante insuficiência respiratória ativa; comunicar pH, PaO2, PaCO2 e déficit de bases.
  • Administrar oxigênio suplementar conforme prescrito e titular dentro dos parâmetros prescritos para manter SpO2 na faixa ordenada (comumente 92–96% para evitar hiperoxia excessiva).
  • Escalonar progressivamente (cateter nasal → cateter nasal de alto fluxo → VNI → intubação orotraqueal) conforme prescrito, com base na resposta e no trabalho respiratório e conforme protocolo institucional.
  • Posicionar o paciente em posição de Fowler alta quando tolerado; preparar e auxiliar no posicionamento em prona conforme protocolo institucional quando prescrito para SDRA moderada a grave (comumente considerada com P/F < 150 após intubação).
  • Coordenar com fisioterapia respiratória e equipe médica o suporte à ventilação protetora conforme protocolo ARDSnet e prescrições médicas (comumente VT 4–8 mL/kg de peso corporal predito, Pplat < 30, pressão de distensão < 15).
  • Manter cabeceira a 30° quando em decúbito dorsal, realizar higiene oral com clorexidina conforme protocolo institucional de prevenção de PAV, apoiar o protocolo diário de TRS/TRE conforme prescrição médica e assegurar a administração de profilaxia de TVP e úlcera de estresse conforme prescrito.
  • Orientar o paciente e a família sobre o significado da progressão nos dispositivos de oxigenoterapia e os objetivos de cada etapa.
  • Educar o paciente (quando acordado) sobre respiração com lábios franzidos e respiração diafragmática como ferramenta de autogerenciamento em uso de cateter nasal ou CNAF.
  • Educar a família sobre o que envolve a intubação orotraqueal, o curso esperado na UTI e os sinais de recuperação a serem esperados.
  • Notificar o médico para SpO2 abaixo dos parâmetros prescritos com > 6 L por cateter nasal, FR > 30 com tiragens, ou P/F caindo abaixo de 200.
  • Coordenar com fisioterapia respiratória e intensivista o posicionamento em prona, bloqueio neuromuscular conforme protocolo institucional na SDRA grave, ou consulta para ECMO quando a hipoxemia refratária for o problema predominante.

Resultado: SpO2 é monitorada e comunicada dentro dos parâmetros prescritos com o menor suporte que atinja a meta; relação PaO2/FiO2 é monitorada e sua tendência comunicada conforme protocolo institucional; frequência respiratória é monitorada e uso de musculatura acessória é comunicado.

Diagnóstico de Enfermagem 5: Alteração da Função Renal

Alteração da Função Renal relacionada à Sepse (definição Sepsis-3: disfunção orgânica com risco de vida por resposta desregulada do hospedeiro à infecção); choque séptico se hipotensão persistente com necessidade de vasopressores para manter PAM ≥ 65 com lactato > 2 mmol/L evidenciada por Hipotensão pré-ressuscitação com PAM < 65; Lactato > 4 mmol/L na apresentação; Elevação da creatinina ≥ 0,3 mg/dL em 48 h ou 1,5× o valor basal; Débito urinário < 0,5 mL/kg/h por ≥ 6 h; Exposição a nefrotóxicos: aminoglicosídeos, nível mínimo de vancomicina, contraste iodado.

Intervenções

  • Mensurar débito urinário a cada hora; calcular por quilograma conforme protocolo institucional.
  • Acompanhar tendência de creatinina sérica e ureia ao menos uma vez ao dia; comparar com o valor basal quando disponível (comumente consultar registros de 7–365 dias anteriores).
  • Monitorar potássio, fósforo, bicarbonato, cálcio e magnésio conforme prescrição médica na evolução da IRA.
  • Revisar diariamente a lista de medicamentos com a equipe médica ou farmacêutica quanto a agentes nefrotóxicos e ajuste de dose renal.
  • Avaliar as indicações AEIOU para TRS: Acidose, Desequilíbrio Eletrolítico, Ingestão (tóxica), Sobrecarga (volêmica), Uremia.
  • Manter PAM dentro dos parâmetros prescritos com ressuscitação volêmica e administração de vasopressores prescritos conforme protocolo institucional.
  • Administrar cristaloide balanceado prescrito (Ringer com lactato ou Plasma-Lyte) conforme orientação médica quando ressuscitação com grande volume for necessária.
  • Coordenar com farmácia o ajuste de dose de antibióticos para função renal conforme protocolo institucional; alertar o médico quando existirem alternativas menos nefrotóxicas.
  • Suspender IECA, BRA e AINEs conforme prescrição médica durante a doença aguda.
  • Preparar o paciente e a família para a possibilidade de TRS (TRRC na UTI; HID na enfermaria) se a IRA progredir, conforme orientação médica.
  • Educar o paciente e a família sobre o papel dos rins na sepse e o que a IRA pode representar para a evolução hospitalar e a recuperação.
  • Orientar o paciente e a família sobre a importância de evitar AINEs e contraste iodado após a alta até que a recuperação renal seja confirmada pelo médico.
  • Educar sobre implicações em longo prazo: acompanhamento ambulatorial com nefrologia, repetição da creatinina, controle da pressão arterial conforme protocolo de alta institucional.
  • Notificar o médico para DU < 0,5 mL/kg/h por 6 h, elevação da creatinina, hipercalemia > 5,5 ou piora da acidose.
  • Coordenar consulta com nefrologia para IRA Estágio 2 ou superior conforme prescrição médica e preparar para possível início de TRRC conforme protocolo institucional.

Resultado: Débito urinário é monitorado e comunicado conforme protocolo institucional; tendência de creatinina e ureia é monitorada e comunicada à equipe médica; eletrólitos (K+, HCO3, fósforo) são monitorados e alterações são comunicadas.

Fisiopatologia

A sepse é definida pelo Sepsis-3 (2016) como disfunção orgânica com risco de vida causada por uma resposta desregulada do hospedeiro à infecção, operacionalizada como aumento agudo de ≥ 2 pontos no SOFA. A definição antiga baseada em SIRS é obsoleta; o qSOFA (FR ≥ 22, alteração do nível de consciência, PAS ≤ 100) é um alerta à beira do leito para avaliação adicional e não constitui, por si só, uma ferramenta de triagem. A fisiopatologia tem início quando padrões moleculares associados a patógenos (PAMPs) e padrões moleculares associados a danos (DAMPs) ativam receptores de reconhecimento de padrões, desencadeando uma liberação maciça de citocinas (TNF-α, IL-1, IL-6). Essa tempestade de citocinas produz disfunção endotelial generalizada, degradação do glicocálice e aumento da permeabilidade capilar. O resultado é profunda vasodilatação sistêmica, extravasamento do fluido intravascular para o terceiro espaço, trombose microvascular por desequilíbrio da coagulação-fibrinólise e prejuízo na extração de oxigênio no nível tecidual. A hipoperfusão tecidual leva ao metabolismo anaeróbico, ao acúmulo de lactato e à progressiva disfunção de múltiplos órgãos (IRA, SDRA, disfunção hepática, CIVD, cardiomiopatia induzida pela sepse, encefalopatia). O choque séptico é o subgrupo com hipotensão persistente dependente de vasopressores (PAM < 65) e lactato > 2 mmol/L apesar de ressuscitação volêmica adequada, com mortalidade hospitalar > 40% segundo as diretrizes da Surviving Sepsis Campaign 2021.

Referência Rápida

  • Meta de PAM: ≥ 65 mmHg
  • Meta de lactato: < 2 mmol/L e em declínio
  • Tempo porta-antibiótico: ≤ 1 h (choque séptico) conforme protocolo institucional
  • Bolus de cristaloide: 30 mL/kg nas primeiras 3 h conforme SSC 2021
  • Bundle Hora-1: Todos os 5 elementos conforme protocolo institucional

Exames Laboratoriais Comuns

Exame Valor de referência Significado na Sepse
Lactato (inicial) < 2 mmol/L > 2 mmol/L pode indicar hipoperfusão tecidual; > 4 mmol/L é marcador de hipoperfusão grave e elemento-chave do bundle. A equipe de enfermagem monitora e comunica o valor à equipe médica.
Lactato (repetição em 2–4 h) Em declínio A não depuração de ≥ 10% em 2 horas está associada à maior mortalidade e pode embasar discussões de escalonamento com a equipe médica.
Leucócitos 4–11 × 109/L Leucocitose ou leucopenia (< 4) podem ocorrer na sepse; desvio à esquerda e presença de bastonetes também podem estar presentes. A enfermagem comunica valores fora do intervalo de referência.
PCR / Procalcitonina PCR < 10 mg/L; PCT < 0,5 ng/mL A PCT pode auxiliar na diferenciação entre padrões bacterianos e virais e apoiar decisões de desescalonamento de antibióticos pela equipe médica. Conforme a IDSA, a PCT isolada não deve ser usada para iniciar ou suspender antibióticos; a enfermagem monitora e comunica a tendência.
Hemoculturas × 2 Sem crescimento Coletar de 2 sítios diferentes antes dos antibióticos quando não houver atraso significativo previsto, conforme SSC 2021 e protocolo institucional. A enfermagem coordena a coleta das culturas com o momento da administração dos antibióticos.
Creatinina 0,6–1,2 mg/dL A IRA associada à sepse é uma das falências orgânicas mais comuns na sepse; a enfermagem acompanha a tendência juntamente com o débito urinário e comunica valores crescentes à equipe médica.
Hemoglobina 12–17 g/dL Conforme SSC 2021, a transfusão é comumente considerada com Hgb < 7 g/dL; um limiar mais elevado pode ser aplicado na presença de isquemia ativa. As decisões de transfusão são tomadas pela equipe médica; a enfermagem administra os hemocomponentes prescritos conforme protocolo institucional.
Plaquetas 150–400 × 109/L A trombocitopenia pode sinalizar CIVD; a enfermagem comunica a queda das plaquetas e solicita fibrinogênio e D-dímero conforme prescrição médica quando há suspeita de CIVD.
Bilirrubina / ALT Bili < 1,2 mg/dL A disfunção hepática é um componente do SOFA; o padrão colestático é comum na sepse. A enfermagem monitora e comunica a tendência.
Gasometria arterial pH 7,35–7,45; lactato < 2 mmol/L A acidose metabólica com lactato elevado é típica; o ânion gap pode auxiliar na avaliação do padrão da acidose. A enfermagem comunica tendências de piora à equipe médica.
Troponina < 0,04 ng/mL A cardiomiopatia induzida pela sepse ou a isquemia por demanda podem produzir elevação discreta. A enfermagem comunica valores fora do intervalo de referência e acompanha a tendência em relação ao ritmo e à hemodinâmica.

Medicamentos Comuns

Classe Exemplos Mecanismo de ação Principais efeitos adversos Considerações de enfermagem
Antibiótico de amplo espectro Piperacilina-tazobactam ± Vancomicina, Meropeném Cobertura bactericida para prováveis patógenos Gram-negativos, Gram-positivos e anaeróbios; a seleção pela equipe médica é orientada pelo foco suspeito e pelo antibiograma local. C. difficile, nefrotoxicidade (nível mínimo de vancomicina), alergia, febre medicamentosa, seleção de microrganismos multirresistentes. Conforme SSC 2021 e o bundle hora-1, a suspeita de choque séptico se beneficia da administração de antibióticos em até 1 hora do reconhecimento, conforme protocolo institucional. Administrar conforme prescrito; coordenar a coleta de culturas antes da primeira dose quando não houver atraso significativo previsto. Monitorar resposta, alergia e efeitos adversos; apoiar o desescalonamento com a equipe médica em 48–72 h com base nos resultados das culturas.
Cristaloide (ressuscitação) Ringer com lactato (comumente preferido), NaCl 0,9% Restaura o volume intravascular; o Ringer com lactato apresenta eletrólitos balanceados e menor carga de cloreto em relação ao soro fisiológico. Sobrecarga volêmica, acidose metabólica hiperclorêmica (soro fisiológico), edema pulmonar, anemia dilucional. Conforme SSC 2021, um bolus inicial de 30 mL/kg nas primeiras 3 horas do reconhecimento da sepse é comumente utilizado; reavaliação com medidas dinâmicas (elevação passiva dos membros inferiores, variação da pressão de pulso) é recomendada antes de bolus adicionais. Administrar conforme prescrito e conforme protocolo institucional; monitorar PAM, tendência do lactato, ausculta pulmonar e débito urinário após cada bolus e comunicar piora dos achados pulmonares.
Vasopressor (comumente de primeira linha) Norepinefrina (Levophed) Agonista α1 com leve atividade β1. Vasoconstrição (eleva a RVS e a PAM) com preservação do débito cardíaco. Taquiarritmia, isquemia periférica e digital, necrose tecidual por extravasamento em acesso periférico, bradicardia reflexa em doses mais elevadas. Administrar conforme prescrito. Conforme SSC 2021, o início do vasopressor não deve ser retardado enquanto se aguarda acesso venoso central; a administração periférica de curto prazo por acesso venoso periférico calibroso em veia proximal do membro superior é aceitável conforme política institucional, com monitorização ativa do sítio para extravasamento. A enfermagem monitora PAM, débito urinário, perfusão periférica, sítio de infusão e ritmo cardíaco; comunica intercorrências conforme parâmetros médicos e protocolo institucional. Tratar extravasamento com fentolamina conforme prescrição médica.
Vasopressor (comumente adjuvante) Vasopressina (0,03 unidades/min fixo) Agonista V1 não catecolaminérgico. Acrescenta vasoconstrição em dose baixa fixa sem estimulação β adicional; preserva os receptores adrenérgicos da dessensibilização. Isquemia digital, hiponatremia, isquemia mesentérica em doses mais elevadas, redução do débito cardíaco em doses mais elevadas. Administrar conforme prescrito e conforme orientação médica. A SSC 2021 endossa a associação de vasopressina ao esquema com norepinefrina (uma faixa de gatilho comum é norepinefrina em aproximadamente 0,1–0,5 mcg/kg/min, conforme instituição). Tipicamente, o médico seleciona uma infusão em dose fixa; a enfermagem não titula a vasopressina como vasopressor primário. Monitorar PAM, sódio e perfusão periférica e abdominal.
Corticosteroide Hidrocortisona 200 mg/dia IV (50 mg a cada 6 h ou infusão contínua) Pode restaurar a responsividade vascular às catecolaminas; modula a inflamação. Hiperglicemia, hipernatremia, imunossupressão, hemorragia digestiva, fraqueza neuromuscular. Conforme SSC 2021, a hidrocortisona pode ser considerada no choque séptico com necessidade contínua de vasopressores apesar de ressuscitação volêmica adequada. Administrar conforme prescrito; monitorar glicemia conforme protocolo institucional (comumente a cada 4 h em uso de corticosteroide), observar efeitos adversos e apoiar o desmame com a equipe médica à medida que os vasopressores são reduzidos.
Inotrópico Dobutamina (2,5–20 mcg/kg/min) Agonista β1 seletivo. Aumenta a contratilidade miocárdica e o débito cardíaco; leve vasodilatação β2 pode reduzir a RVS. Taquiarritmia, hipotensão em doses mais elevadas, aumento da demanda de oxigênio miocárdico, tolerância. Administrar conforme prescrito e conforme orientação médica quando ecocardiograma ou avaliação clínica indicar suporte inotrópico (por exemplo, baixo débito cardíaco / cardiomiopatia induzida pela sepse apesar de PAM e volemia adequadas). A enfermagem monitora ritmo, PAM, débito urinário e tendência do lactato; comunica nova taquiarritmia ou hipotensão conforme protocolo institucional.
Insulina (infusão intravenosa) Protocolo de insulina regular Reduz a glicemia; promove controle glicêmico durante a doença crítica. Hipoglicemia (o efeito adverso mais perigoso), hipocalemia, hiperglicemia de rebote na interrupção. Conforme SSC 2021, a meta glicêmica de 140–180 mg/dL é comumente utilizada (o controle intensivo não melhorou os desfechos). Administrar conforme prescrito e conforme protocolo institucional de insulina; monitorar glicemia na frequência prescrita (comumente a cada 1 h em infusão) e potássio conforme prescrição médica. Bolus para titulação da infusão não fazem parte dos protocolos padrão de insulina.
Profilaxia de TVP e úlcera de estresse Enoxaparina / heparina SC; IBP ou bloqueador H2 Prevenção de TEV por inibição do fator Xa; supressão da acidez gástrica em pacientes sob ventilação mecânica ou com coagulopatia. Sangramento, TTIH (heparina), risco de C. difficile e pneumonia com uso prolongado de IBP. Administrar conforme prescrito e conforme protocolo institucional, salvo contraindicação por sangramento ativo ou plaquetas < 50. A profilaxia de úlcera de estresse pode ser reavaliada diariamente com a equipe médica; a desprescrição é comumente considerada quando o paciente é extubado e alimentado por via enteral.

Referências

  • Makic, M. B. F., & Martinez-Kratz, M. R. (Eds.). (2023). Ackley and Ladwig’s Nursing Diagnosis Handbook: An Evidence-Based Guide to Planning Care (13th ed.). Elsevier.
  • Evans, L., Rhodes, A., Alhazzani, W., et al. (2021). Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2021. Critical Care Medicine, 49(11), e1063–e1143.
  • Singer, M., Deutschman, C. S., Seymour, C. W., et al. (2016). The Third International Consensus Definitions for Sepsis and Septic Shock (Sepsis-3). JAMA, 315(8), 801–810.
  • Centers for Disease Control and Prevention. (2024). Get Ahead of Sepsis. U.S. Department of Health & Human Services. https://www.cdc.gov/sepsis/

Perguntas frequentes

What is the nursing care plan for Sepsis?

A Sepsis nursing care plan organizes the assessment, nursing diagnoses, goals, interventions, and evaluation criteria for a patient with Sepsis and Septic Shock. Diagnoses are ordered by what is currently most destabilizing for the patient.

What are the priority nursing diagnoses for Sepsis?

Priority diagnoses for Sepsis appear in the Nursing Diagnoses section above, ordered by clinical acuity. The top diagnosis should reflect what is currently most destabilizing for this specific patient.

What is the priority nursing intervention for Sepsis?

Priority interventions for Sepsis are listed in the care plan above, organized by diagnosis. The most critical actions address airway, circulation, and the highest-acuity problem first.

What complications should the nurse monitor for in Sepsis?

Complications to monitor for in Sepsis are listed within each diagnosis section above. Trend vitals, mental status, and the condition-specific red flags described in the assessment section.

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